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Caça-Valor na B3: Configurando Filtros de P/L e Dividendos em 2026

Aprenda a configurar filtros quantitativos avançados no home broker para rastrear empresas com índice Preço/Lucro atrativo e histórico sólido de pagamentos de proventos.

Mariana Costa
Mariana CostaEditora Chefe de Câmbio e Commodities8 min de leitura
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A lista de ativos da B3 não para de crescer e, em 2026, tentar achar uma "joia" apenas olhando setores ou seguindo dicas de Twitter é a maneira mais rápida de queimar a lata. O mercado brasileiro oferece rendimentos interessantes, mas eles vêm escondidos em meio a bancos com capitalização gigantesca e small caps que mal negociam. Para quem busca renda passiva combinada com valorização, a única saída profissional é filtrar os dados brutos.

Você precisa de uma metodologia que cruze o preço do lucro (P/L) com a realidade do caixa que entra na sua conta. Não estou falando de teoria de academia, mas de configurar o screener — o filtro quantitativo — presente nos home brokers modernos para separar o trigo do joio.

O erro clássico do investidor iniciante é olhar apenas para o Dividend Yield (DY) isolado. Ações com DY de 15% frequentemente escondem empresas em distress financeiro, cujo preço caiu tanto porque o mercado prevê prejuízos futuros. Por outro lado, comprar apenas pelo menor P/L pode te levar a empresas que não pagam dividendos há décadas. O segredo é o cruzamento.

Entendendo o P/L Projetado antes de clicar em "Filtrar"

O índice Preço sobre Lucro (P/L) mede quantos anos você levaria para recuperar seu investimento através dos lucros da empresa, mantendo tudo constante. Um P/L de 6 é teoricamente mais barato que um P/L de 20. O problema é que o P/L que a maioria das plataformas mostra por padrão é o baseado no lucro dos últimos 12 meses (LPA 12M). Em 2026, com a Selic ainda em dois dígitos (hoje em 10,75%), olhar apenas para o passado é perigoso.

O mercado desconta o futuro. Se a empresa teve um lucro excepcional no ano passado que não se repetirá, o P/L estará artificialmente baixo, te atraindo para uma armadilha. Ao configurar seu filtro, busque a opção "P/L Projetado" ou "P/L 2026". Essa métrica usa a expectativa de lucro dos analistas para os próximos 12 meses. Se uma empresa negocia com P/L de 5 hoje, mas o lucro projetado cai pela metade no próximo ano, o P/L real futuro é 10.

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Passo 1: Acessando e Limpando o Campo de Busca

Abra a área de "Filtros Avançados" ou "Screener" no seu home broker — a localização varia se você usa Rico, Clear, XP ou Nubank, mas a lógica de dados é a mesma.

Primeiro, limpe o campo. Não selecione setores específicos como "Energia" ou "Bancos" ainda. Se você restringir demais, perde a chance de encontrar valores atípicos em setores esquecidos. O que queremos é que o algoritmo varra toda a bolsa. Certifique-se de que o filtro de "Liquidez" não esteja bloqueando tudo, mas não o ajuste agora; faremos isso no passo final para evitar viés prematuro.

Passo 2: Definindo o Teto do Índice Preço/Lucro

Aqui é onde definimos o que é "barato". No contexto atual do Brasil, com taxas de juros estruturalmente mais altas do que no ciclo de 2020-2021, múltiplos de P/L acima de 15 ou 20 exigem um crescimento de lucros agressivo para se justificarem. Como buscamos empresas pagadoras de proventos (geralmente negócios maduros e estáveis), não devemos pagar caro por crescimento que provavelmente não virá.

Configure o filtro para P/L (Projetado ou 12M) menor que 11.

Por que 11? É um número arbitrário? Sim, mas pragmático. Ele desconsidera empresas excessivamente caras ou com lucros em compressão. Contudo, fique atento a outliers. Se você encontrar uma steelmaker ou montadora com P/L de 2 ou 3, verifique se não é um "multíplo baixo de qualidade" — preço baixo porque a margem de lucro está destruindo o capital.

Passo 3: O Piso do Dividend Yield Real

Agora, vamos impor o requisito de renda. Muitos filtros errados usam o "DY Último Mês", que é volátil. Se a empresa pagou um adelanto de JSCP (Juros sobre Capital Próprio) neste mês, o yield vai parecer de 20%, mas o total anual pode ser medíocre.

Configure o filtro para DY (Últimos 12 Meses) maior que 6%.

Hoje, 6% é o piso mínimo para compensar o risco de ação versus a renda fixa pós-fixada. Abaixo disso, você está basicamente apostando apenas na valorização do papel, o que foge do objetivo de "proventos reais". Se o seu screener permitir, filtre também por "Pagamento de Proventos: Recorrente" ou "Payout > 50%". O Payout é a porcentagem do lucro que a empresa distribui. Empresas de boa gestão de dividendos tendem a ter um payout consistente, algo entre 50% e 75%, mantendo o resto para reinvestir.

Passo 4: A Verificação de Liquidez para não virar refém

Aqui é onde a maioria dos filtros de "valor" falha. Você pode encontrar uma papel e celulose negociada a P/L de 3 com DY de 12%. Parece o negócio do século até tentar vender R$ 10.000 em ações e perceber que não há comprador. Em 2026, a liquidez na B3 se concentrou ainda mais nos principais tickers.

Ajuste o filtro para Volume Financeiro Médio Diário maior que R$ 2.000.000.

Esse número garante que há circulação de dinheiro suficiente para você entrar e sair sem espalhar o preço. Muitos pequenos investadores caem em armadilhas de iliquidez, acreditando ter achado uma empresa subvalorizada, mas que na verdade é um "ativo morto". Se você não consegue vender, o valor no papel é irrelevante. Mito ou Realidade: Ações de 1 Centavo Sempre Vale a Pena? — a leitura desse tema ajuda a entender como a falta de liquidez disfarça preços tentadores.

Passo 5: O Filtro de Solidez (Dívida Líquida/EBITDA)

Empresas baratas e pagadoras de dividendos podem estar fazendo uma "pirâmide" de caixa. Para garantir que os proventos são sustentáveis, precisamos checar a endividamento.

Adicione um filtro para Dívida Líquida / EBITDA menor que 3.

O EBITDA é o lucro antes de juros, impostos e depreciação — uma métrica de caixa operacional. Se a empresa deve mais do que três vezes seu caixa operacional anual, qualquer aumento nos juros (que vivemos agora) pode devorar o lucro e obrigar a empresa a cortar dividendos. Uma empresa com P/L baixo, DY alto e dívida baixa é o "Santo Graal" do investidor em valor.

Analisando os Resultados e o Cuidado com os Setores Cíclicos

Ao rodar essa busca, você verá que certos setores dominarão a lista: Energia Elétrica (principalmente as transmissoras), Seguradoras e alguns Bancos médios. As elétricas aparecem muito porque têm receitas reguladas e pagam dividendos compulsórios.

Contudo, não clique em comprar no primeiro da lista. As transmissoras têm baixa volatilidade, o que é ótimo para renda, mas raramente oferecem multiplicação de capital. Já os bancos podem oscilar mais. Se o objetivo é equilíbrio, procure nessa lista empresas que não dependem de commodities para operar, para não sofrer com o ciclo de preços internacionais.

Lembre-se que filtros são eliminatórios, não classificatórios. Eles tiram o que é ruim, mas não garantem que o que sobrou é excelente. Você ainda precisa ler o Release de Resultados do último trimestre da empresa escolhida.

Quando o P/L Mente e o Desconto é Justificado

Há um cenário em que o filtro acima pode te trazer problemas: empresas em declínio estrutural. Imagine uma varejista tradicional que está perdendo mercado para o e-commerce. O lucro cai, o preço cai proporcionalmente, mantendo um P/L de 8 aparentemente atraente, e a empresa paga dividendos para manter o acionista. O filtro vai aprovar.

Como detectar isso fora dos números? Olhe a evolução da receita nos últimos 5 anos. Se a receita nominal não cresceu, mas a inflação acumulada foi de 30%, a empresa está encolhendo. Você está comprando um cupom de renda que pode acabar no médio prazo. O filtro quantitativo não vê essa tendência de longo prazo, apenas o corte temporal. A análise qualitativa ainda é insubstituível.

A Alternativa Passiva (e Por Que Eu Prefiro o Filtro)

Nem todo mundo quer passar por essa parametrização. Para quem prefere não analisar empresa por empresa, a comparação com fundos passivos é inevitável. Um ETF de Ibovespa (BOVA11) vs Fundo Multimercado: Quem Ganha na Volatilidade? O fundo passivo oferece diversificação instantânea, sem o risco de escolher uma empresa específica que corte o dividendo. O filtro, porém, te dá o potencial de bater o índice se você escolher bem. É o trade-off clássico entre esforço e retorno diversificado.

Se você não tem tempo de ajustar esses filtros trimestralmente, o BOVA11 é uma saída segura. Mas se você quer extrair renda superior à média da bolsa, os filtros de P/L e DY são a ferramenta mínima necessária.

Conclusão

Configurar esses filtros tira a análise do campo da intuição e a leva para a probabilidade. Ao exigir um P/L abaixo de 11, DY acima de 6%, dívida controlada e liquidez saudável, você elimina 90% das ações da B3 que são muito caras, muito arriscadas ou muito ilíquidas. O que sobra é uma lista curta e gerenciável para estudo detalhado.

O maior aprendizado aqui não é a configuração técnica, mas o entendimento de que proventos reais exigem saúde financeira. Empresas pagam dividendos quando sobra dinheiro, não quando tomam empréstimo. Se o seu filtro resultar em nomes que você nunca ouviu falar, investigue a liquidez com cautela redobrada; muitas vezes o mercado mantém o preço baixo porque ninguém consegue negociar o ativo. Use essas configurações como o primeiro funil de seleção, mas nunca assine a ordem de compra sem verificar se o negócio continua gerando caixa de verdade.

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