Tesouro IPCA+ 2035 Compensa Mais que CDB de Liquidez Diária Agora?
Com a Selic projetada para cair no segundo semestre de 2026, travar IPCA+ 6,00% até 2035 pode entregar rentabilidade real superior à de um CDB de liquidez imediata, desde que você abra mão do acesso rápido ao capital.


A dor de cabeça do investidor em 2026 mudou de figura. No ano passado, a discussão era sobre quanto a Selic subiria para conter a inflação. Hoje, olhando para o horizonte do segundo semestre, a conversa na mesa de operações da maioria das corretoras é sobre quanto a taxa básica vai cair e qual ativo vai segurar a ponta. E aqui entra um dilema clássico: devo continuar no CDB de liquidez diária, que me deixa dormir tranquilo sabendo que posso sacar a qualquer hora, ou devo migrar para o Tesouro IPCA+ 2035 e travar uma rentabilidade real que os títulos pós-fixados talvez não consigam entregar daqui a alguns meses?
A resposta curta, arriscando o pescoço como quem vive de mercado, tende a favorecer o título longo do Tesouro para quem tem paciência. Mas a resposta longa envolve entender o mecanismo da marcação a mercado e o custo invisível de pagar pelo conforto da liquidez.
O Cenário de Juros em 2026 e a Projeção Inflacionária
Para comparar maçãs com pêras, precisamos olhar os números. Em 13 de maio de 2026, a expectativa do mercado já precifica um ciclo de corte da Selic. Estamos saindo de uma patamar de dois dígitos para uma zona de conforto que o Banco Central considera neutra, provavelmente orbitando 9,00% ou 9,25% até o fim do ano. Ao mesmo tempo, as projeções para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) se estabilizam perto da meta de 3,5% para 2027, com risco de viés altista se o câmbio der sustos.
O que isso significa para o seu bolso? Um CDB que rende 100% do CDI hoje paga, nominalmente, muito bem. Mas rentabilidade nominal é ilusória. O que importa é o quanto sobra no final depois que a inflação corrói seu poder de compra. Se a Selic cai para 9% e a inflação fecha em 4%, seu ganho real é de apenas 5% ao ano. Agora, olhe para o Tesouro IPCA+ 2035 (NTN-B Principal). Na manhã desta terça-feira, ele está sendo negociado com uma taxa real de 6,05% ao ano. Isso significa que, independentemente de a Selic ir a 9%, 8% ou 12%, você recebe a inflação integralmente (seja ela 3% ou 10%) + esses 6,05% fixos.
Em um cenário de juros cadentes, a matemática do IPCA+ se torna muito mais atraente para travar patrimônio do que o CDB, que tende a ter seu rendimento corroído tanto pela inflação quanto pela queda da taxa referencial.

O Pesadelo da Marcação a Mercado no Curto Prazo
Aqui é onde a maioria dos investidores amadores tropeça e sai vendendo no prejuízo. O Tesouro IPCA+ 2035 é um título de longo prazo. Se você compra hoje e precisa vender amanhã, está sujeito à volatilidade diária do preço causada pela marcação a mercado. Basicamente, se as taxas de juros futuras sobem, o preço do seu título cai; se as taxas caem, o preço sobe.
Como estamos em um cenário projetado de corte de juros, o preço desse título tende a valorizar. Logo, você ganharia não só os juros, mas também o ganho de capital. No entanto, se o Copom surpreender o mercado e manter os juros altos por mais tempo que o esperado, ou se a inflação dos próximos meses sair da curva, o valor unitário do título pode oscilar para baixo.
Por outro lado, o CDB de liquidez diária não tem essa volatilidade. Se você aplica R$ 10.000, daqui a um mês você terá o principal atualizado pela taxa DI, sem sustos. Essa estabilidade tem um preço: o spread que o banco paga sobre o CDI. Nos grandes bancos, você dificilmente verá mais de 90% ou 95% do CDI em um produto com liquidez imediata. Nas corretoras independentes, é possível achar 100% ou até 110%, mas esses últimos geralmente vêm com credit risk (risco de crédito) de bancos médios que você precisa avaliar.
A Matemática do "Esquecer o Dinheiro"
Vamos fazer um exercício de simulação concreta. Imagine que você tem R$ 50.000 para investir e não precisa tocar nesse dinheiro pelos próximos 4 ou 5 anos.
No CDB de Liquidez Diária (pagando 100% do CDI), se a Selic média ficar em 9,5% ao ano e a inflação em 4%, seu ganho real médio anual é de 5,5%. Ao final de 5 anos, você acumula um valor nominal decente, mas o poder de compra cresceu a um ritmo moderado.
No Tesouro IPCA+ 2035 (fixado em 6,05% + IPCA), assumindo uma inflação média de 4% ao ano (mesmo cenário do CDB), sua rentabilidade nominal seria de aproximadamente 10,05% ao ano. Seu ganho real, porém, é garantido em 6,05%. Em 5 anos, a diferença composta de apenas 1 ponto percentual real sobre o CDB já representa uma diferença significativa no valor final.
A chave aqui é o prefixado. O 6,05% é um contrato assinado. O CDB é uma promessa que depende da Selic futura. Se a Selic despencar para 8,5% daqui a dois anos, o seu CDB de liquidez diária vai acompanhar essa queda ladeira abaixo. O seu Tesouro IPCA+ continuará ganhando inflação + 6,05%, o que, na prática, pode significar um juro nominal de 14,05% se a inflação disparar, ou um juro "real" blindado se a inflação ficar baixa. É a cobertura perfeita contra o erro de previsão do Banco Central.
Quando o CDB Diária é Imbatível
Não vou romantizar o Tesouro IPCA+ a ponto de ignorar que, para a maioria das pessoas, a liquidez é segurança. Se esse R$ 50.000 é sua reserva de emergência ou o dinheiro para trocar de carro no fim do ano, o IPCA+ 2035 é um desastre esperando para acontecer.
Você não pode depender do mercado secundário do Tesouro para cobrir uma conta de dentista inesperada. Em dias de estresse no mercado, a liquidez pode secar e você pode ser obrigado a vender com um deságio brutal. O CDB de liquidez diária brilha aqui: você clica em resgatar e, no dia seguinte (ou no mesmo dia, dependendo do banco), o dinheiro cai na conta, exatamente o valor que você viu na tela.
Além disso, existe a questão da tabela progressiva do IR. No Tesouro, você só paga imposto no resgate final. No CDB, existe o "come-cotas". Semestralmente, o imposto é deduzido automaticamente e reinvestido, o que reduz o efeito dos juros sobre juros. Embora pareça pequeno, em um horizonte de 10 anos, o come-cotas corrói uma fatia não desprezível do rendimento do CDB, algo que não acontece no Tesouro Direto (que tem o regime de caixa para juros semestrais ou tributação apenas no resgate para o principal).
O Fator Risco de Crédito que Pouca Gente Leva em Conta
Outro ponto que me deixa alerta é o risco de contraparte. Um CDB, por mais que tenha a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até R$ 250.000 por instituição, é um título de dívida privado. Se o banco quebrar, você entra numa fila de ressarcimento. O FGC paga, mas demora e gera estresse.
O Tesouro IPCA+ 2035 é dívida soberana. O governo pode dar calote, tecnicamente, mas a probabilidade histórica e a capacidade de emissão de moeda tornam isso infinitamente menos provável que a falência de um banco médio no cenário econômico atual. Para valores acima de R$ 250.000, o Tesouro é a única opção racional de baixo risco. Abaixo disso, você pode espalhar em CDBs de bancos diferentes para ficar coberto pelo FGC, mas perde a gestão centralizada e a facilidade de um único ativo.
Se você tem o perfil de quem coloca o dinheiro e esquece, o risco do banco não vale a pena o prêmio de liquidez, especialmente porque os grandes bancos, que são "mais seguros", pagam taxas de CDB que nem de perto batem o IPCA+ longo prazo.
Veredito: A Hora de Travar a Rentabilidade
Minha posição é firme: se você tem dinheiro que pode ficar parado por pelo menos 3 a 5 anos, o Tesouro IPCA+ 2035 compensa mais que o CDB de liquidez diária agora.
Estamos em 2026, e o ciclo de juros altos está começando a virar as costas. Manter-se em liquidez diária agora é um conservadorismo caro. Você está pagando com a perda de ganho real futuro a opção de ter o dinheiro na mão amanhã, uma opção que, estatisticamente, você provavelmente não vai usar.
Ao migrar para o IPCA+ 2035, você realiza um "swap" inteligente: troca a incerteza da taxa futura por uma certeza contratual de ganho real. Você sai da posição de "torcedor" da Selic para a posição de "dono" de uma taxa fixa que a maioria dos bancos gostaria de pagar para captar, mas não pode porque seus custos de funding são altos.
Claro, exige estômago para ver o valor do título oscilar na extrato da sua corretora semana a semana. Esse ruído de curto prazo é o preço da entrada no clube da rentabilidade real de 6%+ aliada à proteção contra a inflação. Se você consegue olhar para o gráfico sem se assustar com as "dentes de serra" diárias, a alocação em IPCA+ longo prazo é o movimento tático mais inteligente para preservar patrimônio neste cenário de transição monetária.
Para quem ainda tem dúvida sobre como precificar esses títulos e saber se está pagando caro na hora da compra, vale revisar como funciona a formação de preços no mercado secundário. Não entre de olhos fechados; olhe a taxa real e compare com a inflação projetada.
Se o seu dinheiro é de longo prazo, a liquidez diária é um luxo que você não precisa se dar ao luxo de bancar. Trave o juro real e deixe a inflação trabalhar a seu favor, em vez de contra você.

